As palavras nunca fazem o luto.

A cozinha sempre foi um espaço doméstico, criativo e eloquente no que respeita ao conhecimento das coisas e dos sentidos. 

A cozinha apela à revolução sensorial. A sedução pela visão, dado que os olhos também comem, a precisão da audição, invocada nos diálogos das refeições, a reivindicação influente do paladar e do olfacto que nos transmutam para memórias e paisagens que nos devolvem à infância.

As máquinas não podem saborear. Os sentidos são um assunto muito humano. Com eles, levedamos no prazer, o horizonte final de todo o sentido da condição humana. 

Amanhecia quando abriste a porta e o vento entrou de rajada, sacudindo a subjectividade dos sonhos que me iam na cabeça. Aproximaste o corpo debaixo dos estilhaços do sol que a ti se colavam, como um filão perfurando a mina.

- Anda comigo. Vamos a um funeral. - Propuseste com a energia dos instintos e a expressão das belas-artes. Um ateu, num mundo esvaziado de Deuses, de olhos inquietos cravados nos meus, impregnados de sinais secretos, como se fosse uma epifania, a consciência nítida do poder das metáforas.

- Está bem, vamos. Estou a precisar de chorar. - Assenti sem doutrina na plenitude do puro prazer, numa sensualidade desviada. Transcendente caí em mim, inicial e intacta. Afinal o que eu precisava era de um simbolismo líquido que banhasse o silêncio de uma desarmonia interior.

Seguimos de mãos dadas, apertando o epicentro do desejo, invocando o hedonismo e a estética da existência. 

|||ACP|||

Foto: www.pinterest.pt

 



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