Pedra, Papel, Tesoura Ou o Torpor de Um Dia de Verão
Não tive coragem para dizer mais nada. Certas palavras ecoam na alma como o som de um sino no deserto, longe, muito longe percorrem os espaços vazios, medem-me e enchem-me de memórias.
Bastava esticar o braço e comparar os símbolos para decidir o rumo do desafio. O que quer que fosse viria a revelar-se libertador, pensei para mim.
Lançávamos as palavras do jogo como se fossem punhais prontos a rasgar os nervos. Chegávamos sempre ao empate e paralisávamos, perturbados, de olhar endurecido, excessivamente imóveis para sermos reais.
Só passado algum tempo, dei o primeiro passo para a frente. Deixaste que me aproximasse. Cauteloso, recuaste. A medo. Os meus pés avançavam silenciosos, um atrás do outro, sobre a laje aquecida pelo sol. Os teus passos cediam sozinhos ao toque invisível dos meus, em retrocesso sincronizado, como quem anseia por entender mais longe. O olhar astuto. Como quem caça. E no momento em que ia começar a formar o salto para me lançar à água, voaste furtivo sobre mim e caímos juntos para as fundas àguas acetinadas da piscina, num argumento convicto e aprovado por um sol soberano. Quando atingimos a superfície, já tinhamos perdido o peso em troca da vertigem.
ACP


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