Quando a coragem salta do corpo, na queda.
A mancha púrpura desenhada sobre a pele delimitava um
território que pressentia a morte. Uma nódoa de sangue baça, obscura, como uma
ameaça pesada e humilhante. Um carimbo reprovador entre as coxas. Uma afronta na
palidez do corpo privado de consciência. Deitou-se vestida sobre a cama e aos
poucos o caos mental foi-se organizando numa ideia. Aguardou o dia para se
reconstruir nervo a nervo.
De início não sabe o que fazer de si. Contempla-se
longamente no espelho. Acha-se bela. Outras vezes, feia. Explora o corpo. Faz
descobertas. O addómen tinha entumescido ligeiramente, acumulando uma adiposidade
sedentária. Os seios pareciam espalmados, duas lapas do aveso intuindo o poder
da sua feminilidade. Alonga os olhos com
eye-liner, desgranha o cabelo, franze o rosto até parecer uma harpia. Passa a língua
pelos lábios para amenizar a secura. A mancha permanecia no corpo e no pensamento,
agressiva e assustadora. Os olhos vaguearam vazios pelo quarto. Poisaram na
janela e na possibilidade ambivalente da fuga ou da vingança. Escolhe a primeira,
pelo crescente estado de agitação que embacia o espírito, numa mescla de terror
e nojo. Com o medo nas narinas e o frio nos dentes, finca os passos no caminho.
Lança-se para o meio da multidão que se reproduz num vai-e-vem na esplanada.
Acredita na fantasia de se esfumar como sons desprendidos das palavras, cujo efeito tivesse
a virtude física de levar pelo ar o corpo, repondo-o no seu estado natural.
ACP
"Girl at the Window" - Photo Art Canvas

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