E-feito Origami
O frio cortava na superfície inquieta do mar trazendo no
código dos ventos um murmúrio que se desfazia nas linhas da face, misturando os
nossos cabelos num rigoroso segredo exilado no rumor de um oráculo.
Assim fomos, juntos, pela maré nocturna, planando entre a
poalha de luz das palavras que teciamos no timbre da voz. As minhas pernas
aprendiam um novo equilíbrio enquanto na boca pousava aquela interrogação das
pessoas persistentemente maravilhadas.
Tinha a sensação de que me ia desfazer em vapor ou num
deleitável esgotamento no qual se evaporava toda a minha resistência.
As tuas mãos sobre mim, como aves desejosas de voos ousados,
despovoaram-me de qualquer pensamento. Cerrei os olhos, atribuíndo à pele o
sentido da visão, excitando a minha verocidade. Distribuíste uma dança de
vincos e voltas, urdindo invenções pictóricas, numa estética indizível de
prazer.
Despertei pela manhã e o meu corpo tinha-se transformado num
belo e enigmático origami.
|||ACP|||


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