Porque é de um Quadro que se trata

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Em primeiro lugar descortino à deriva um lugar,  como quem repara um descuido insignificante, Pergunto-me: Será o lugar de honra, o lugar do morto ou um lugar ao sol?

Começo a sentir-me segura mas temo não aquecer o lugar que me calhar.

Consulto o relógio. A infância fica cada vez mais distante.

No  corredor do centro comercial circulam homens vestidos com fatos pretos e que, apesar de estar escuro, usam óculos de sol. Continuo a andar decidida, suficientemente corajosa. Não me lembro qual é o dia de hoje , mas consigo contar os anos. A cabeça dos homens de fato e óculos escuros vigiam o mundo proibido, com os seus olhos-sensores. Estávamos todos proibidos de fazer amizades. Desenvolver vínculos e expressar afectos era como se apanhássemos um micróbio. 

Continuo a parecer invisível na multidão de criaturas subvisuais, como um plástico transparente esvoaçante, graças ao meu cheiro  medicinal a plantas,impecavelmente falsificado.

Tudo parecia tranquilo, como se nunca fosse acabar. Era um plano construído de memórias e associações, transformado num quadro estático na parede. Eu não estava lá. Dou-me conta que não estou no quadro, porque sou a moldura. Sou eu a manter tudo aquilo junto. Um punhado de neurónios. Sou só uma miragem. 



|||ACP|||

Photo Collage by Anne-Laure Maison



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