Intervalo Nocturno

Acordei de madrugada com a força da chuva, intensa sobre a cabeleira verde das árvores, tamborilando sobre os vidros das janelas, abandonada ao assobio do vento, nos seus movimentos carregados, até ao corpo do chão, ensopando-o de felicidade.

Levantei-me, abri a persiana e deslizei a porta da varanda. O corpo recebeu na pele destapada o prazer epidérmico e sensorial da aragem fresca. Deixei-me ficar, desimpedida do sono, na condição inevitável do prazer solitário partilhado com aquele fenómeno catalisador  da natureza. A felicidade cristalizou-se num estado flutuante, perdida no espaço, sem deixar a trás de si o menor eco. 

Não tardou e uma fenda de luz rasgou a paisagem do céu , como quem procura uma razão para justificar a existência. O som violento de um trovão golpeou o estado melancólico, pulsando na leveza das coisas. 
Aperto os braços sobre mim e deixo que o silêncio se instale de novo. Recolho-me. O mundo pareceu-me deserto. Só eu existia.

Enfiei-me de novo na cama ainda morna, deixando-me levar num voo livre sobre o cume de um sonho, procurando-te em mim. 

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